18/02/11

RESUMO DESCRITIVO SOBRE A IMPORTANCIA DO ATO DE LER DE PAULO FREIRE

A IMPORTÂNCIA DO ATO DE LER

            Rara tem sido a vez, ao longo de tantos anos de prática pedagógica, por isso política, em que me tenho permitido a tarefa de abrir, de inaugurar ou de encerrar encontros ou congressos. Aceitei fazê-la agora, da maneira, porém menos formal possível. Aceitei vir aqui para falar um pouco da importância do ato de ler. A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. a leitura de um texto, tomado como pura descrição de um objeto é feita no sentido de memorizá-la, nem é real leitura, nem dela portanto resulta o conhecimento do objeto de que o texto fala. A insistência na quantidade de leituras sem o devido adentramento nos textos a serem compreendidos, e não mecanicamente memorizados, revela uma visão mágica da palavra  escrita Na medida, porém, em que me fui tomando íntimo do meu mundo, em que melhor o percebia e o entendia na "leitura" que dele ia fazendo, os meus temores iam diminuindo. A decifração da palavra fluía naturalmente da “leitura” do mundo particular. Não era algo que se estivesse dando supostamente a ele. O mesmo do - primeiro mundo que se deu à minha compreensão pela “leitura” que ele fui fazendo. Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo e não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto. Ao ensaiar escrever sobre a importância do ato de ler, eu me senti levado - e até gostosamente - a "reler" momentos fundamentais de minha prática, guardados na memória, desde as experiências mais remotas de minha infância, de minha adolescência, de minha mocidade, em que a compreensão critica da importância do ato de ler se veio em mim constituindo Num país pobre, pequeno, recém-independente do jugo colonial, tendo seu povo e sua liderança de enfrentar um sem número de dificuldades. Vamos observando o desenvolvimento intelectual dos grupos, sua capacidade de ler os textos e de compreender a realidade, sua curiosidade. Não foi por outra razão que a ex-ministra da Educação, Maria Amorim, optou por um programa humilde, mas realista, à altura das reais possibilidades do país. Se problematizam constantemente os alfabetizandos para que escrevam e leiam praticando a escrita e a leitura. Se, em lugar nenhum é possível escrever sem praticar a escrita, numa cultura de memória preponderantemente oral como a são-tomense, um programa de alfabetização precisa, de um lado, respeitando a cultura como está sendo no momento, estimular a oralidade dos alfabetizandos nos debates, no relato de estórias, nas análises dos fatos; de outro, desafiá-los a que comecem também a escrever. Ler e escrever como momentos inseparáveis de um mesmo processo - o da compreensão e o do domínio da língua e da linguagem.  Considerando ainda o caráter oral da cultura, no estado em que se encontra, sugere-se que façam uma leitura primeira, em voz alta, pausadamente, que deve ser seguida silenciosamente pelos alfabetizandos. Em continuação, que estes prossigam na sua leitura silenciosa durante um certo momento após o qual se começará, de um a um, a leitura em voz alta. Qualquer que seja o texto, terminada a sua leitura, é indispensável a discussão em torno dele. Não se estuda apenas na escola. Estudar é assumir uma atitude séria e curiosa diante de um problema, um texto para ser lido é um texto para ser estudado. Um texto para ser estudado é um texto para ser interpretado. Não podemos interpretar um texto se o lemos sem atenção, sem curiosidade; se desistimos da leitura quando encontramos a primeira dificuldade. Enquanto expressão da ideologia dominante, este mito penetra as massas populares provocando nelas, às vezes, auto-desvalia por se sentirem gente de nenhuma ou de muito pouca “leitura". Mas, é importante dizer, a “leitura” do meu mundo, que m e foi sempre fundamental, não fez de mim um menino antecipado em homem, um racionalista de calças curtas. A curiosidade do menino não iria distorcer-se pelo simples fato de ser exercida, no que fui mais ajudado do que desajudado por meus pais. Vivi intensamente a importância elo de ler e de escrever, no fundo indicotomizáveis, com os alunos das primeiras séries do então chamado curso ginasial. A regência verbal, a sintaxe de concordância, o problema da crase, o sinclitismo pronominal, nada disso era reduzido por mim a tabletes de conhecimentos que devessem ser engolidos pelos estudantes. Concluindo estas reflexões em torno da importância do ato de ler, que implica sempre percepção critica, interpretação e "re-escrita” do lido, gostaria de dizer que, depois de hesitar um pouco,resolvi adotar o procedimento que usei no tratamento do tema, em consonância com a minha forma de ser e com o que posso fazer.


(Resumo descritivo do livro de Paulo Freire: a importância do ato de ler)
(Freire, Paulo, 1921 – A importância do ato de ler: em três artigos que se completam /
São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989)

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